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HISTÓRIA SEM FIM

Prólogo

Cairo: 10.30h, Sexta feira. Local: quarto de um hotel qualquer. Intervenientes: Ele, Ela e um Tipo Estranho. Fala o Tipo primeiro:

- Vocês não se vão arrepender. É um paraíso na terra, algo do qual nunca irão encontrar em mais lado nenhum.
- Mas o que tem esse sítio de tão especial? Na verdade inacreditável, para além da tua história, só o que nos estás a pedir para o fazermos.... Preciso algo que me prove que tudo o que nos contaste é verdade.

- Provas não tas posso dar, vais ter que acreditar... Conheceste-me há quê? Dois dias? E já estás disposto a aceitar.... tu e ela....

(Ele olhando para Ela)
- O que é que achas? O que nos contou é de facto impressionante.... estás disposta a aceitar?

- Estou!

- A sério? Não tens dúvidas?

- Nenhumas. Sinto no fundo de mim que é verdade e não conseguia mais viver descansada se não o fizermos, mesmo que isso implique o pior...

- Comer favas guisadas?

- Pior que isso ainda!

(Ele vira-se agora para o Tipo Estranho)
- O que é que preciso, para além de pagar, claro?

- Só têm que beber isto.... do resto trato eu....


Capítulo Um

"Porque é que nos sentimos tão bem aqui?", perguntou-lhe ele no centro daquela praça, num qualquer sítio desconhecido. Como tinham ido lá parar não sabiam, parecia que tinha sido por magia. Tinham a leve impressão de que tudo aquilo, aquele estranho lugar onde se encontravam, tinha sido o culminar de planos e fugas, mas não se lembravam de como o tinham feito, nem mesmo se o tinham feito.... e quem eram aquelas pessoas que os rodeavam?

Pareciam personagens saídas de um filme... havia ali algo que estava deslocado, como se alguém não pertencesse ao cenário, duas realidades tão diversas, mas ao mesmo tempo tão fundidas.... seriam eles os dois ou todos os outros que estavam ali a mais?

Tinham-se lembrado de que em todos os sítios que tinham visitado, tinham sempre conhecido pessoas, mais ou menos interessantes, pessoas que lhes tinham deixado uma marca, uma recordação... mas ali não se passava nada disso, tudo era estranho e ao mesmo tempo tão familiar...

Não sabiam há quantos dias estavam ali. Dias? Podiam muito bem ser semanas... não tinham conhecido ninguém, não no verdadeiro sentido da palavra, mas estavam ali os dois de mão dada, inebriados por algo que não sabiam explicar... Nem se incomodavam com o facto de não serem viajantes, mas sim turistas, com datas para cumprir, compromissos para os quais teriam que voltar. Como tinham mesmo ido lá parar?

- Sabes onde estamos?

- Não. Isso importa?

- Só estava com curiosidade... é que não me lembro sequer muito bem como viemos cá parar...

- Não quero pensar nisso...

E assim ficaram durante muito tempo, olhando um para o outro com um estranho sorriso nos lábios. Não sabiam explicar o que sentiam, estavam como que hipnotizados, sem medos, preocupações.... só sentiam o que sentiam um pelo outro..... e deixaram-se estar assim, pelo menos até serem interrompidos por um estranho homem que começou a falar-lhes numa estranha língua, uma mistura de sons guturais e de urros. Parecia que estavam diante de um homem dos tempos primordiais. Ao ver-lhes a expressão de espanto no rosto, o homem começou a falar-lhes numa língua mais familiar. Ela percebia.

- Vocês estão cá há pouco tempo não estão?

- Na verdade não sabemos. - respondeu-lhe ela - Estávamos agora mesmo a falar disso, entretanto distraímo-nos....

- Sim!! Sim!!! O amor. A coisa mais bela do mundo, normalmente é sempre a última a desaparecer aqui neste sitio...SIM!! Sim!!! Se o vosso amor for forte, então ainda vão poder lembrá-lo por mais algum tempo...ao contrário de mim... DE MIM!!!!

- Mas..... (antes que ela lhe pudesse dizer mais alguma coisa, já ele se afastava rapidamente a esbracejar e a urrar naquela estranha linguagem....)

Ficaram de seguida em dúvida a olhar um para o outro, até que ela disse:
- Percebeste alguma coisa daquela conversa?

- Não percebi nada!

- Que conversa tão estranha…. o homem parecia que estava louco, falava de lembranças e esquecimento. Não sei porquê, mas acho que está relacionado com toda esta situação, o facto de não nos lembrarmos de como viemos cá parar… não sentes curiosidade?

- Não.

- As vezes irritas-me!!!

- Pronto não te chateies.... se há uma coisa da qual ainda me lembro é onde estamos hospedados e neste momento está-me a apetecer ir para lá. Prometo-te que vamos tentar descobrir como chegámos e onde estamos, mas antes não te queres vir deitar um pouco?

- Estás cansado?

- Não, mas apetece-me ficar...

Ela compreendeu logo até porque já conhecia muito bem aquele olhar. Levantaram-se rapidamente em direcção ao sítio onde tinham ficado hospedados. No caminho enquanto ele não parava de a tocar impacientemente, ela não parava de pensar naquilo. Até o lugar para onde iam, era de facto um sítio também ele estranho, diferente de todos onde eles, nas suas inúmeras viagens, tinham estado. Parecia um hotel exótico, mas a verdade é que não o conseguia descrever. Nem o seu aspecto exterior, nem o seu interior. A verdade é que se sentia em casa, como se tivesse passado a sua infância ali, e estivesse de volta e nada tivesse mudado. Sentia-se tão bem lá dentro... mas queria desesperadamente saber porquê e porque é que não se lembrava de nada, e como é que estavam agora neste momento a passar a porta principal sem sequer saber como tinham lá chegado...

- Que nervos!!!!

- Já sabes que sou assim... contigo não consigo ficar quieto... não me apetece mesmo sair daqui...

- Estava a pensar naquilo outra vez...

- Quando acordarmos vamos tratar de descobrir o "mistério".... vemos se conseguimos encontrar aquele tal tipo das cavernas. Agora quero-te só para mim...

E lá foram para o quarto... ( o que se passou lá dentro abstenho-me de o descrever até porque já nem lembro. Toda esta história de memória e falta dela acabou por me afectar também...). A verdade é que só acordaram muito tempo depois, ao mesmo tempo. Olharam-se nos olhos fixamente, ela sorriu e lá voltaram novamente ao esquecimento. Foram no entanto interrompidos por algo que parecia ( e era na realidade) um tremor de terra, um daqueles assim assim, talvez na escala de Richter entre um certo receio e um grande cagaço... Acabaram no entanto por aproveitar para juntar ao que estavam a fazer, o que lhes deu um gozo tremendo, pelo menos até o candeeiro lhe ter aterrado em cima da cabeça, provocando aquilo a que os médicos chamam uma contusão, mas que acabou por ter nele o efeito contrário... E depois parou...

- Foda-se mais a merda do candeeiro!!

- Não pares! NÃO PARES!!!

- Acho que parti a cabeça... podes ver? Mas que raio de cena foi esta. Pelos vistos este paraíso já começa por ter umas falhas.... vou ver se falo com alguém do pessoal daqui, se é que há...

E saiu porta fora. O sangue já lhe escorria pela cabeça, mas ele nem sequer se apercebia.... encontrou o que parecia ser um daqueles rapazes que levam as malas e pedem sempre gorjeta.

Avançou para ele:
- Desculpe lá, não tem um penso rápido? E que raio de coisa foi esta? Não me diga que isto acontece muitas vezes por aqui...

- Não. É muito raro.... já nem me lembro da última vez que isto aconteceu veja lá você.... teve algum acidente com o ketchup?

- Não, caiu-me um candeeiro em cima da cabeça.... espera lá... eu percebo-te!! Falas a mesma língua que eu!!

- Pois é... vamos então tratar disso.... eles não vão querer que ninguém se magoe... como é que fez isso?

- Foi no terramoto.

- Qual terramoto?

- Aquele que aconteceu mesmo agora...

- Desconheço... siga-me que vamos tratar disso... tenho ali uma coisa que o vai por bom num instante.

E foram-se... Ela tinha vindo entretanto à porta do quarto, pois estava preocupada com ele. Estava também irritada pois não gostava daquele tipo de interrupções. " Onde andará aquele desastrado? Nunca conheci homem tão propício a acidentes... vou ver se o encontro por aí... entretanto vou explorando melhor este lugar. Ainda hei-de descobrir o que está por detrás disto tudo! Que sítio realmente tão estranho!! E por onde anda toda a gente? Parece-me ouvir cânticos. Vêm lá de cima. Vou ver se consigo descobrir de onde vêm...".

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- Que raio de mistela é esta? Sabe mesmo bem. E já me passou a dor de cabeça. Ainda sangra?

- Ah? Não, já está tudo bom.... sente-se bem?

- Sinto-me óptimo!! Não tem mais disto?

- Por agora chega. Diga-me lá, já cá está há muito tempo?

- Olhe se quer que lhe diga nem sei há quanto tempo estamos cá. Perdi a noção de tempo desde que cá cheguei. Também nunca ando com relógio... Sabe que horas são e a que dia estamos?

- Dia? Horas?....... Não, não sei, também sou muito distraído no que respeita a essas coisas.

- Bom , se não me vai dar mais disso, vou voltar para a quarto, essa mistela deu-me cá uma estaleca, vou ver se recomeço onde fiquei...

- Boa sorte meu amigo!!!

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Encontrou então uma porta diferente de todas as outras. Estava na base do que parecia ser uma torre incrustada no meio do "edificio". Experimentou abri-la. Não estava fechada à chave, nem tinha nenhum cadeado, mas teimava em não abrir, parecia mesmo que não queria. O buraco da fechadura era em forma de sorriso, parecia que antes não o era. Estaria a porta a rir-se para ela?

- Merda de porta!!!!

E pregou-lhe um valente pontapé. Ouviu um gemido e a porta começou a abrir-se, libertando um vento bafiento e quente que trazia também consigo os tais cânticos que tinha ouvido antes. Habituou os olhos à penumbra e começou então a subir aquele longo caracol de degraus...

- Aposto que são daqueles que nunca mais acabam!!!, resmungou entredentes.

E de facto eram!! Passada meia hora ainda ela se arrastava degraus acima, cada vez mais curvada e arfante:
- Estou a ficar obesa.... preciso de fazer uma dieta... perder uns quilitos...

Finalmente vislumbrou uma réstea de luz, o que lhe deu alguma esperança que passou logo, pois era um archote preso numa reentrância que deixava vislumbrar mais degraus. Continuou penosamente ( o "ligeiro" excesso de peso era compensado por uma grande teimosia...). Por fim, lá vislumbrou novamente luz. " Mais um sacana de um archote!!", pensou, mas não era ,era mesmo o fim daquela longa escadaria que dava para um longo salão abandonado, coberto por uma névoa que não deixava sequer lhe ver o fim, para qualquer um dos lados para onde olhasse. À sua frente levantavam-se à vista imponentes colunas que pareciam ter sido construídas por gigantes ciclopes ou mesmo daqueles com dois olhos (o que era mais lógico por causa da perspectiva). Decidida a ir até ao fim daquilo, pois até já tinha andado aquele caminho todo, avançou para a névoa e após andar uns dez minutos deu de caras com uma pequena portinhola. Ficou espantada pois afinal aquele salão não era assim tão extenso como aparentava ser.... A pequena porta estava entreaberta e chegou-lhe logo do outro lado um forte odor a cerveja e morcela frita, acompanhados por fortes gargalhadas e urros tão incompreensíveis como insuportáveis...!!! Empurrou a porta decidida e demorou bastante tempo a habituar-se ao ambiente, tal era a névoa (esta era diferente) que inundava aquele...

Se quiser saber o fim desta história, terá que aguardar que o autor se lembre de a terminar. Se ficar revoltado com a espera, envie-nos o seu final, ou uma reclamação. O nosso serviço de Relações Públicas não o esquecerá!

 
 
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