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UMA ESTRANHA FORMA DE VIDA OU A VIDA DE UM RATO

CAPÍTULO I - Porque é que isto me lembra alguém?

Os dias parecem ser todos iguais, mas não são.

Há duas semanas que partilhamos a mesma casa e a mesma estranha forma de viver cada dia. Tudo é analisado, tudo é transformado e vivemos cada pequena situação da forma mais alegre e descontraída. A vizinha galinha, as estórias da televisão e dos jornais, as visitas que recebemos e os nossos passeios à rua para fazer compras, fazem o nosso dia a dia. O que é estranho é ele não demonstrar tédio... Ele diz que tem muita paciência... Eu sei, bem vejo!

No fundo estamos a viver refundidos da realidade, de tudo o que se passa à nossa volta, ao mesmo tempo que a realidade que nos chega é totalmente analisada e dissecada...

Passar quase 24 horas diárias na mesma casa, no mesmo local - quando devíamos estar a fazer outras coisas, deveria cansar-nos, destruir-nos. Por enquanto não está. Pelo menos de uma forma muito visível. Talvez porque por agora o tédio seja combatido com o gozo do mesmo. Por enquanto!..

No quarto dele, o despertador e o telemóvel tocam não sei quantas vezes. O despertador, desliga-o sempre. É apenas um sinal que ele põe a funcionar, para acordar por uns instantes e aperceber-se que está vivo. Pelo telemóvel, algumas pessoas tentam despertá-lo para a realidade. Uma dessas pessoas é o pai que lhe telefona todos os dias de manhã mais do que uma vez. Quando atende o telefone diz "está bem", mas vira-se para o outro lado e espera por nova tentativa.

Hoje o pai fez um dos habituais telefonemas - estava ele ainda no primeiro sono - e perguntou-lhe onde é que ele estava. Com voz de sono e concerteza ainda a sonhar com o trânsito da cidade, disse estar no autocarro a caminho da escola. Desligou o telefone e voltou a dormir.

Às 17h30 levantou-se. O início de um novo dia!

Porque a higiéne é coisa com a qual ele não se descuida, foi logo tomar banho. Durante uma hora e tal viu desenhos animados e futebol na televisão. Coisas de quem quer ocupar o tempo mas não sabe como. Ao mesmo tempo íamos conversando sobre o dia de ontem, lembrando-nos das paranóias provocadas pelos charros com um tal de Otário Cajado ou Octávio Machado... Rimo-nos imenso com o agricultor que tem a mania que é construtor civil!

Mandámos também uma boca ou outra sobre a vizinha galinha. Com ele estendido no puf... A relaxar os músculos.
Saímos por uns vinte minutos. Ele ía às compras ao supermercado e eu a uma cabine telefónica, pelo que cada um foi para o seu lado. Ele acabou por desistir do supermercado e ficou-se pelo merceeiro perto de casa. Um daqueles do comércio tradicional, com produtos de merda e preços de luxo. Quando regressou ao lar estendeu-se no puf.

Entrei em casa e voltei a sair para comprar cola em stick e comprar-lhe tabaco. Ele ficou estendido no puf. Não demorei muito. Apenas alguns minutos, para voltar rapidamente ao aconchego do refúgio.

Durante o resto da tarde papou a Xica da Selva, O Pírulas do Senhor Reitor e outros programas de televisão.

Ao fim do dia, voltei a sair. Telefonei, bebi um café e passei na casa de um amigo que se mudou para aqui perto durante o fim-de-semana. Trouxe-o a casa comigo e entrámos exactamente no momento em que ele fazia o segundo charro da noite. Fui fazer o jantar mas ele não quis comer. Já tinha comido pão. Muito pão. Aliás, foi essa a alimentação dele durante todo o dia.

O meu amigo ficou por cá uma meia hora e quando começou a ficar afectado pelo ambiente de inércia desta casa, resolveu ir-se embora comprar tabaco. Acompanhei-o. Ele ficou estendido no puf a olhar para a televisão.

Alguns minutos depois regressei ao refúgio e sentei-me ao lado dele. Procurou uma posição melhor no puf porque estava a ficar com sono, mas continuou no trabalho de distensão muscular. Entretanto, fumámos mais um charro.

A garrafa de Coca-Cola estava quase no fim, bem como o gelado e o pão. Enquanto enchia mais um copo com a água suja do imperialismo ele comia mais pão, agora com marmelada, ao mesmo tempo que experimentava um iogurte de chocolate. Eu também fui por uma fatia de pão com marmelada. Durante mais algum tempo ele continuou estendido no puf a ver televisão.

Às quatro horas da manhã, resolveu deitar-se. Eu desliguei o computador e fui escrever em papel.

Amanhã espera-me outro dia interessante até às 19 horas, quando tenho algo fora da rotina para fazer. Quanto a ele não sei. Está a tentar dormir e só se há-de levantar quando tiver fome!


CAPÍTULO II - Ideias estúpidas

Hoje acordou doente! Às cinco da tarde. Tomou um banho, comeu qualquer coisa, tomou um comprimido contra a gripe e ligou a televisão.

Porque está com fome e não lhe apetece deixar o solo sagrado do refúgio, já falou em telefonar à Telepizza e pedir uma pizza média. O rádio também está ligado, e a acompanhar os ritmos das músicas está ele a assoar-se. Pelo menos dá um tom diferente às músicas.

Saí por umas horas, para o tal compromisso, mas quando voltei a casa ele continuava estendido no puf. Fiz um jantar falhado para mim e comi. No lixo, lá estava uma caixa de pizza média da Telepizza. Uma vez mais não saíu de casa.

Neste momento está a ver o resumo da Liga dos Campeões, na sua posição habitual.

Acabei de o convidar para fazer ginástica, mas ele recusou. Deve ser por hoje à tarde já ter feito a ginástica que tinha a fazer. Segundo ele, um misto de flexões e outro exercício qualquer. Tudo com a cabeça. Um bocadinho para a frente, um bocadinho para trás e um bocadinho para os lados. Tudo isto sentado no puf. Deve ser para manter o pescoço em forma, de maneira a que possa virar a cabeça sem dificuldades. Afinal quando uma pessoa está sentada não olha sempre na mesma direcção. Por uma razão qualquer, uma pessoa tem sempre a tendência de olhar para os outros lados, seja para mexer os olhos ou o pescoço, ou para apanhar um objecto que se encontre próximo.

O nariz dele está a pingar e lá fora está um temporal - que nos motiva ainda mais a permanecer no sossego e conforto da nossa casinha - que inunda Lisboa dia sim, dia não, e ele ameaça-me com inundações vindas do nariz dele. E nós até estamos num sítio alto da cidade. Se inundar escorre tudo pela rua abaixo. Basta eu abrir a porta da rua.

O local onde se encontra a nossa casa tem uma série de vantagens. Pelo menos foi essa a conclusão a que chegámos mal nos instalámos. Temos talho, peixaria, supermercados, cafés, padaria e uma série de outros serviços imprescindíveis à vida numa cidade. A verdade, é que não passamos do merceeiro tradicional. Estamos tão cansados de não fazer nada, que não temos vontade de fazer seja o que fôr.

Há mais de 59 horas que ele não sai de casa. Porque amanhã vai para as Caldas da Rainha às 15 horas - isto se conseguir acordar -, vai ficar-se para já, por um recorde superior a 70 horas sem pôr um pé fora do refúgio. Hoje até fizemos uma estimativa de quantos metros é que ele andou esta semana: cerca de 100 metros. Espantoso!

Num só dia, um caracol conseguia andar mais. Com isto, a história da corrida da tartaruga e da lebre vai passar a ter mais um elemento, que por sinal é quem perde a corrida.

Ele está cada vez mais cheio. É do pão e de passar o dia estendido no puf. Ah, e das Coca-Colas e das pizzas. Ontem foi outra pizza média. O caso dele é grave. Como não sai de casa, ainda temos que partir paredes e alargar a porta, para quando ele quiser sair à noite, para comprar pão ou Coca-Cola...
 
 
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