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O HOMEM SORRIDENTE

Acordou cedo e de sorriso nos lábios. Ainda atordoado cumpriu o ritual da manhã. Lavou a cara, vestiu a T-shirt branca de alças e as 501 russadas compradas nos ciganos. Comeu uma carcaça do dia anterior com manteiga acompanhado dum café com leite. Tudo a correr... Com mais pressa ainda, pegou na sacola com a merenda e saíu a correr do apartamento para não perder o autocarro. Na paragem era o 48º da fila. Com sorte talvez ainda conseguisse um lugar no primeiro autocarro.

A lata de sardinhas chegou já com pessoas em pé. Com esforço entrou no autocarro, não conseguindo, no entanto, evitar que o braço direito ficasse preso nas portas que se fecharam. Apertado e com o nariz encostado ao sovaco de outro homem, começou a fazer as contas ao tempo que ainda faltava para o fim da viagem. Talvez chegasse ao seu destino em 50 minutos, o que lhe dava meia-hora para apanhar o segundo autocarro e chegar a horas ao emprego. Isto é claro, se não houvesse um engarrafamento qualquer.

Mas há dias de sorte... e conseguiu chegar a horas. Com um enorme sorriso nos lábios olhou para os portões da fábrica de pregos e sentiu uma felicidade interior enorme, por uma vez mais ser o primeiro a chegar. Como grande adepto do ciclismo, chegar em primeiro era o mesmo que ganhar uma etapa da Volta a Portugal. O prémio de tal pontualidade - algo de que muito se orgulhava -, era o tradicional sorriso amarelo do patrão, que todos os dias abria os cadeados dos portões da oficina.

Na fábrica de pregos todos o respeitavam, todos os seus oito colegas. Pelo menos todos lhe sorriam, tal como o patrão, e nunca o criticavam. Sentia-se feliz com isso e por tal razão sorria também durante todo o horário de trabalho. Das oito ao meio-dia e meio, todos os trabalhadores desta empresa familiar trabalhavam esforçadamente, e quando chegava a hora do almoço todos esboçavam um enorme e triunfal sorriso. A primeira etapa do dia estava ultrapassada e era a hora de falar de mulheres e futebol. Era o momento em que todos reflectiam o imaginário e as frustrações da vida. Sempre com um sorriso nos lábios...

Às duas horas pegava novamente no trabalho. Com vontade, mas a um ritmo mais lento, porque o estômago ainda completava o seu trabalho. O sorriso mantinha-se. Afinal, trabalhar de barriga cheia sempre sabia melhor.

O resto do período de trabalho não era muito diferente do horário da manhã. Bebia-se uma ou outra cervejola enquanto se faziam pregos. Os dias mais difíceis eram aqueles em que o frigorífico estava vazio, e não havia hipótese de largar o trabalho para ir buscar bebida à mercearia nas imediações. No entanto e só de vez em quando, lá havia um ou outro que saía da fábrica para ir buscar a «gasolina», como lhe chamavam. Quem não gostava muito era o patrão, que nessas alturas nem sorriso amarelo tinha. No entanto, ninguém se importava porque a esta altura do dia os sorrisos já tinham sido substituídos por gargalhadas movidas a álcool.

Findo mais um dia de trabalho, seguia para o bairro onde morava. Antes de ir para casa onde o esperavam a mulher e os quatro filhos, ainda passava no café. A sua entrada no café era sempre igual. Com um sorriso aberto dizia uma piada à dona do café, e de seguida falava do jogo de futebol que tinha dado no sábado. Bebia mais uns copos e quando se aproximava a hora do Telejornal seguia para casa. O jantar já havia de estar pronto para ser servido. Isso é que o fazia sorrir. Não havia comida como a da sua mulher! Mal entrava em casa sorria por ver a casa sem pó. Tinham sido feitos um para o outro, diziam os amigos. Ela, sempre que passava a ferro, lavava a roupa ou a loiça e via as telenovelas mexicanas, sorria. Fazia os trabalhos da casa sempre sorridente... e com vontade. E como ele sorria ao fim-de-semana... vê-la desempenhar as tarefas domésticas alegremente davam-lhe a certeza de estar bem casado!

Depois do jantar acompanhado do sangue do Telejornal, era a hora de ir novamente ao café beber algo para assentar a comida. Se fosse dia de bola ía para lá sorridente. Se o seu clube perdesse, o sorriso não desaparecia. Algum dia o seu clube havia de lhe dar uma alegria. Não que já lhe tivesse dado muitas, mas isso era algo a que já estava habituado, até porque a sua vida era como a do clube, feita de pequenas alegrias. Afinal a esperança é sempre a última a morrer!
 
 
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