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A BOLEIA

Raimundo seguia no seu automobil modelo v300-t3 a grande velocidade pela estrada de alcatrão que parecia não se importar muito com isso. As curvas da estrada curvavam-se sempre da mesma maneira, o que agradava a Raimundo que assim não precisava de pôr as mãos no volante, preocupando-se antes em mirar pelo espelho retrovisão a bela loira a quem tinha dado boleia, com o óbvio consentimento da máquina e da protuberância que palpitava nas suas calças.

A bela loira chamava-se Leobunda e, para poupar no carcanhol, punha-se de vez em quando na estrada ofegando e arqueando-se por forma a apanhar eventuais condutores.

- Para onde vai? - perguntou Raimundo
- Ainda não tinha decidido isso. Também parece que, seja lá qual for o destino para onde queira ir, a estrada tem uma vontade própria, pelo que não me parece muito sensato estar a contrariá-la.
- È verdade… então o que faz a menina?
- Estudo ciência pseudo-polifónica na Universidade de Andalouça. Nos tempos livres dedico-me a viajar sem destino.

Enquanto falava, divertia-se a enrolar os seus compridos cabelos em movimentos circulatórios opostos e a passá-los ao de leve pelos seus seios que logo barafustavam e pareciam entrar em conflito um com o outro, o que muito incomodava a Raimundo.

- Diga-me uma coisa ( perguntou ele) parece-me que a menina é uma pessoa algo conflituosa.
- O que o levou a pensar isso?
- Sempre que a vejo através do espelho, você surge com uma expressão de rancor para comigo, mas mal a olho nos olhos sorri-me com todos os belos dentes que tem.
- A culpa não é tanto minha como do seu espelho. Parece-me que ele não vai muito à bola comigo.
- Que disparate! Sempre foi um fiel amigo, assim como tudo o resto. Repare como concorda comigo.

E de facto, ao dizer isto, o automobil roncava mais alto em alegre disposição. Ao mesmo tempo divertia-se em solavancar, para gáudio de Raimundo que assim podia ver o corpo de Leobunda em alegres convulsões saltitantes. O nervosismo aumentava-lhe, provocando-lhe convulsões nas virilhas. Não queria coçar-se mas não o podia evitar. Ela bem o notava e aproveitava para se remexer ainda mais, rindo e zangando-se conforme a perspectiva do espelho.

Toda esta excitação levou Raimundo a tomar as rédeas do volante e num assomo de coragem decidiu contrariar o pavimento, enterrando as rodas no alcatrão e desenhando assim novas curvas e contracurvas onde elas não existiam antes.

A dada altura a estrada, farta de sofrer profundos golpes nos costados, obrigou Raimundo mais a sua máquina a um zigue-zague ao contrário, o que por sua vez provocou um capotamento suave em que ninguém saiu magoado, pois a força de centrifugação tinha tirado umas férias e divertia-se neste momento na montanha russa de Moscow. Acabaram porém no meio dum descampado coberto de belas lilácias. Raimundo ficou numa posição em que pelo espelho suado via todo o baixo ventre de Leobunda. Aproveitou um momento de breve oscilação para se atirar nos seus braços.

Ela não se mostrou muito contrariada (tirando uns valentes arranhões que lhe fez na cara). Ambos se embrulharam em ambiente de gravidade zero que também estava de férias. Isto provocou um estranho eco nos gritos e gemidos que ricocheteavam na superficie reluzente do carro e logo voltavam às suas bocas para desta vez não sairem nunca mais.Ambos teimavam em sincronizar os urros para dar mais prazer à coisa .

O automobil é que não gostou nada disto, pois apesar de se mostrar cooperante com os avanços do seu condutor, não suportava actos de prazer (ficava logo muito ciumento). De modo que desatou a buzinar e a roncar o motor, ao mesmo tempo que ia engatando a embraiagem provocando solavancos repetidos que cada vez aumentavam mais de vigor e a espaços mais breves. Acabou por isso tudo muito depressa e em breve estavam de volta ao alcatrão que já tinha perdoado a audácia de todos.

- Deixe-me aqui - pediu Leobunda
- Já se vai embora? Não quer que a leve mais adiante?
- Não. Sinto-me muito cansada e sem vontade de avançar mais. Vou ficar aqui a descansar à beira da estrada e quando me recompor apanho outra boleia.
- Tem a certeza?
- Absoluta! Não quer que me zangue consigo pois não?
- Não suportaria ver directamente o seu olhar zangado. Pode ser aqui?
- Perfeito. Então adeus e até uma próxima oportunidade. Quem sabe não nos voltaremos a ver?
- Quem sabe?…

E ao dizer isto Raimundo arrancou velozmente. A estrada tratou de o fazer desaparecer rapidamente da linha do horizonte. Leobunda deixou-se ficar encostada a uma árvore, pintando os lábios e compondo o belo cabelo. A linha longitudinal contínua sorria para ela...

 
 
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