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BAGDAD 08.30 AM

(Dia 243 das hostilidades)

Maldito despertador!!! Estou a falar claro da minha mulher que não me pára de gritar da cozinha com a sua voz estridente:
- Querido despacha-te que vais chegar atrasado ao trabaaaaaalho. Já te esqueceste que estamos em GUERRA?

Maldita guerra e malditos americanos mais os outros que os ajudam! Obrigam-me a levantar meia hora mais cedo do que o normal pois a estrada para onde vou para o trabalho está a ficar cada vez mais esburacada por mísseis, já para não contar nos tipos meio desfeitos que se põem debaixo das rodas do carro e teimam em de lá não sair. Já nem me dou ao trabalho de lavar o carro. Para quê? Cada vez são mais. E a quantidade de vezes que bocados de paredes ou de casas ou bocados de tipos me entram pelas janelas adentro, pregando-me sustos do caraças? Enfim, só chatices…

Ainda por cima o que me deixa pior são as constantes sirenes tocando a toda a hora! Não param de tocar, é enervante. Será que não podiam substituir por uma musiquinha que não ferisse os ouvidos e tivesse o dom de manter um gajo a dormir? Tudo isto porque querem que um gajo se vá enfiar no bunker. Os tipos são malucos.

O "meu bunker" fica a meia hora de carro donde vivo (não contando com as crateras). Devem-me estar a ver a meter-me no carro e os americanos ou a coligação ou lá o que é, a dizerem uns para os outros: "Vamos esperar mais um bocadinho até que o gajo chegue ao bunker e depois lançamos os mísseis…". Que piada! Prefiro ficar em casa a ver televisão ou a coçar os tomates enquanto eles vão caindo por aí. Se me acertarem, paciência…

- Já te levantaste? Olha que a GUERRA não é desculpa para chegares atrasado ao trabaaaaalho!
Podia era cair um aqui em casa enquanto eu tivesse a trabalhar. Não se perdia muito. Já me senti tentado em ligar do trabalho para a CIA ou o FBI ou lá o que é, e dizer:
- Sei onde está o Saddam neste momento, está em minha casa a beber um cházinho de menta com a minha mulher. Não, não me importo, podem despachar os dois. Se gosto da minha mulher? Claro que sim, sr. agente secreto, mas o gajo anda-me a pôr os cornos!

Infelizmente não sei o número e acho que também não acreditariam na minha história. Isto com a falta de mantimentos e água é também uma chatice. Só temos chá para beber mas sem água torna-se um bocado dificil.

No outro dia fui para os bailaricos ao pé dos camiões dos mantimentos que nos enviam os países ricos e preocupados mas cedo desisti daquela farra. Quase me comeram a orelha à dentada quando me confudiram com um saco de farinha de milho. No meio de uma tempestade de areia é fácil acontecerem estas coisas.

Cada vez mais há menos casas e edificios de pé. Isto até torna as coisas mais fáceis no caminho para o trabalho, pois todos os dias aparecem atalhos novos. Que giro, ontem estava aqui uma mesquita e tinha que dar a volta ao quarteirão. Hoje já consigo ir em frente. Não digo nada à minha mulher pois assim poupo tempo e sempre posso ficar um bocado mais na cama. Só o sítio onde trabalho é que ainda está miraculosamente intacto. O meu patrão deve ter algum arranjinho com os americanos ou com os outros. Sempre teve muito jeito para o negócio.

- Sim já estou de pé! Não há nada para comer? Trinco qualquer coisa pelo caminho! Adeus! (tenho que arranjar aquele maldito número).

 
 
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